segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Billings pode evitar o rodízio? Veja fatos e a opinião de especialistas


São Paulo planeja retirar mais água da Represa Billings, na Zona Sul de São Paulo, para reforçar os sistemas Guarapiranga e Alto Tietê. A medida integra um pacote de ações para amenizar a falta d’água no estado. Mas, quais os impactos e as possibilidades para o uso da represa? Ela pode salvar os clientes da Sabesp que dependem do Cantareira?
O G1 ouviu especialistas e o governo. Veja abaixo fatos e opiniões sobre o tema:

Atualmente o Cantareira abastece 6,2 milhões de pessoas. Antes da crise, eram 9 milhões. A diferença foi absorvida pelos outros sistemas e a Sabesp não divulgou novos planos para ampliar a interligação de toda rede e migrar todos os clientes do Cantareira para outros sistemas.

GERA ENERGIA E ABASTECIMENTO

O primeiro uso da Billings, na primeira metade do século 20, foi para armazenamento de água para geração de energia elétrica na Usina de Henry Borden, em Cubatão, na Baixada Santista. Mas, ao longo do tempo e com o crescimento de São Paulo, o uso prioritário passou a ser para o abastecimento da população nos moldes de hoje.
Ao todo, a Billings colabora com 7,7 metros cúbicos por segundo de água para atender 2,3 milhões de pessoas pelos sistemas Rio Grande e Guarapiranga. Isso corresponde a um terço do Cantareira ou metade do Alto Tietê. Na Baixada Santista, o Rio Cubatão também usa água da represa para abastecer 250 mil pessoas, segundo a Sabesp.

VOLUME É DE 500 BILHÕES DE LITROS

A Represa Billings tem capacidade para armazenar 1,2 trilhão de litros e é considerada o maior reservatório da região metropolitana de São Paulo, segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente.
Em janeiro, o volume armazenado era cerca de 500 bilhões de litros. Para efeito de comparação, o terceiro volume morto do Cantareira tem 41 bilhões de litros. Apesar disso, ela não é considerada como um dos sistemas de abastecimento da Grande São Paulo e fornece água para complementar sistemas.

ESTIMATIVA É DE 4,5 MILHÕES

Estima-se que a Billings teria capacidade para fornecer água a cerca de 4,5 milhões de pessoas, o que não ocorre devido à poluição e intensa ocupação irregular nas margens, segundo especialistas.
A presença de contaminantes industriais é outra preocupação. “A Billings foi um reservatório que por muito tempo foi usado para receber afluente industrial, e o lodo no fundo da represa ainda tem uma concentração grande desses resíduos”, explicou o professor associado do departamento de engenharia hidráulica e ambiental da Escola Politécnica da USP, José Carlos Mierzwa.

REPRESA TEM NÍVEIS DIFERENTES DE ESGOTO EM CADA TRECHO

A água da represa tem níveis diferentes de poluição. Desde 1958, a Sabesp usa água de dois braços da represa: do Rio Grande retira 5,5 m³/segundo para atender Diadema, São Bernardo e parte de Santo André. Essa parte do manancial é considerada mais limpa e é isolada da parte mais poluída da Billings.
Do Rio Taquacetuba retira 2,19 m³/segundo. Esse trecho é mais contaminado porque está próximo à área de descarga da água dos rios Tietê e Pinheiros sem tratamento, e enviados para o Guarapiranga.  Entretanto, nem toda a represa tem a mesma qualidade. Teste feito a pedido do Bom Dia Brasil com uma amostra da Billings mostrou que a água está contaminada por bactérias, como escherichia coli, salmonella e shigella, provenientes da contaminação por esgoto não tratado.

HÁ TECNOLOGIA DISPONÍVEL PARA TRATAR A ÁGUA A REPRESA

As técnicas convencionais de limpeza da água usadas hoje em São Paulo não são suficientes, segundo o professor da USP José Carlos Mierzwa. Ele indica sistemas mais sofisticados, como o de membranas ultrafiltrantes, meio com mais capacidade para reter impurezas, como alternativa.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

5 fatos interessantes sobre a Terra

Terremotos não são raros

Se tomarmos o mundo inteiro em conta, os terremotos ocorrem cerca de 500.000 vezes por ano. Cerca de um quinto destes terremotos pode ser sentida pelos seres humanos. Estes sismos menores, que não podem ser detectados por nós, ocorrem a uma velocidade de cerca de 8.000 por dia. Os tremores que podem ser sentidos, mas causam pouco ou nenhum dano a ocorrer cerca de 55.000 vezes por ano.

O núcleo da Terra é mais quente que o Sol

Núcleo interno da Terra é uma bola imensa constituída de uma liga de ferro, com uma espessura de 1,207 km. Esta esfera de metal proporciona um campo magnético protetor contra os raios vindo do espaço. E sua temperatura é 6.100 graus Celsius, tornando-se tão quente como o Sol.

Cerca de 95% do mar ainda é um mistério

Mesmo que a água cubra 71 por cento da superfície da Terra, só exploramos apenas 5 por cento do mesmo. A luz solar penetra até aproximadamente 275 metros. A maior parte da água do oceano escurece a uma profundidade de 30 metros. Há tantos abismos escuros que ainda temos de descobrir.

A gravidade não é uniforme

Você acha que a gravidade teria um efeito igual em todos os lugares do mundo, mas isso não acontece. Por exemplo, a área da Baía de Hudson, Canadá tem uma força gravitacional mais fraca do que a maioria dos lugares na Terra. A mudança é tão minúscula, que você nunca irá senti-lá, mas a tecnologia moderna pode detectá-lá. Até hoje não se tem uma explicação concreta sobre isso.

A Terra é muito pequena

Não é nenhum segredo que a Terra é menor do que o Sol. Impressionantes 109 Terras caberiam ao longo da face do Sol. No entanto, ao mesmo tempo que pode ser um número grande, não é nada em comparação com os cerca de 1,3 milhões de Terras que poderiam caber dentro do nosso Sol como um todo.

Fonte: ListVerse

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

 
06/12/2014 21h01 - Atualizado em 06/12/2014 21h39

Pedreiro faz casa 'ecologicamente correta' com garrafas pet em MG

Mais de 10 mil garrafas foram usadas na estrutura do imóvel em Extrema.
Usando materiais doados, custo da construção ficou menos de R$ 15 mil.

Do G1 Sul de Minas

Um pedreiro de Extrema (MG) resolveu unir criatividade, economia e preservação ambiental na construção da casa própria e usou mais de 10 mil garrafas pet na estrutura do imóvel. O resultado é uma casa arejada, resistente e ecologicamente correta. Usando materiais doados e reutilizando outros, o custo do imóvel ficou em menos de R$ 15 mil. Especialistas acreditam que o projeto, seguro e sustentável, é uma boa solução para a preservação do meio ambiente.
Ao olharmos o imóvel de longe, a estrutura aparenta ser uma casa convencional, mas ao nos aproximarmos, no lugar de tijolos o que se vê são círculos coloridos das garrafas que geralmente usamos para armazenar refrigerantes. O pedreiro Ed Mauro Aparecido Morbidelli conta que teve a ajuda do pai para investir no projeto. "Noventa por cento das garrafas foi meu pai que pegou nas coletas seletivas, passava antes do caminhão e pegava as garrafas, e amigos que iam guardando nas casas.”

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O pedreiro garante que as paredes são tão firmes quanto as feitas com tijolos e que a casa resiste às ações do tempo. "Isso aqui é um tijolo, quase 8 kg cada garrafa cheia", explica.
Pedreiro de Extrema usou garrafas pet em estrutura de casa sustentável (Foto: Edson de Oliveira / EPTV)Pedreiro de Extrema usou garrafas pet em estrutura de casa sustentável (Foto: Edson de Oliveira / EPTV)
Além das garrafas cheias de terra, ele usou cimento e areia. Com a ajuda de amigos, Morbidelli construiu a casa em um terreno na zona rural da cidade. Foram dois anos de obras e para completar ainda falta o acabamento, que ele vai executando aos poucos. O pedreiro nunca tinha feito nada assim e conseguiu aprender sobre a técnica na internet.
Dentro da casa a temperatura é agradável. Os cômodos recebem claridade pelas garrafas plásticas colocadas no telhado. A decoração revela outro talento do pedreiro, de reaproveitar peças que seriam descartadas. Com cacos de azulejo, ele montou mosaicos no banheiro, e com madeiras que iriam para o lixo, fez uma cadeira. A pia da cozinha tem adornos com fundos de garrafa de vidro e até batentes e janelas foram reformados, o que deixou a construção da casa ainda mais barata. "Ficou cerca de uns R$ 12 mil a casa, mas reaproveitando janela, porta, tudo de demolição que foi doado", calcula.
Materiais reutilizados são aplicados na decoração da casa (Foto: Edson de Oliveira / EPTV)Materiais reutilizados são aplicados na decoração
da casa (Foto: Edson de Oliveira / EPTV)
Quando Morbidelli começou a construir com garrafas pet, surgiram outras ideias para que a casa fosse ecologicamente correta. A caixa d'água, por exemplo, é toda abastecida com água de chuva e três caixas recebem água direto da calha. O portão da casa e o arrimo na base são feitos de pneus. Ele ainda plantou no terreno 72 mudas de árvores nativas e frutíferas.
Agora, Morbidelli espera que o projeto dele possa ajudar outras pessoas. "Tem tanta gente que às vezes tem um pedaço de terreno, mas não tem dinheiro pra construir e está pagando aluguel, então você pode fazer algo com baixo custo e que fica bom, que dá pra você morar e tem a preservação [do meio ambiente]. Então [é juntar] o útil ao agradável."
Viável e sustentável
Segundo a arquiteta Ângela Marques, especialista em utilização de materiais alternativos em construções, o uso de garrafas pet em construção se iniciou na Índia e na América Latina, em 2000, e em 2011 ela foi utilizada na Nigéria pra resolver duas questões: o déficit de moradias e o descarte de garrafas pet nas ruas sem um uso adequado.
"A resistência deste material é muito maior do que a do tijolo convencional, isso foi comprovado em pesquisas, e também um ponto importante é a característica termoacústica que a parede de garrafa-tijolo tem. A condutibilidade do calor é inferior ao do tijolo convencional, isso garante que dentro de uma casa de garrafa pet você tem uma temperatura que chega a 18º num país tropical. Isso é super confortável", afirma.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Para Longe do Éden: Bênção. Maldição. Cobiça

A travessia da Terra Santa

por Paul Salopek
     
Jerusalém não é uma cidade de guerra. Avner Goren teima nessa questão.
Caminhamos no Levante sob um céu matinal sem nuvens, seguindo um rio de esgoto a céu aberto que vem espumejando de Jerusalém Oriental – 45 000 metros cúbicos por dia, Goren me informa – uma descarga imunda que percorre 36 quilômetros até o Mar Morto. Acompanhamos o esgoto como uma forma de peregrinação. É como pensa Goren, um dos mais renomados arqueólogos de Israel. “Houve 700 conflitos aqui desde que Jerusalém foi fundada”, ele diz, olhando por cima do ombro, enquanto abre caminho em meio aos turistas religiosos da Cidade Velha. Mas também existiram longos períodos sem guerra. E as pessoas viviam juntas em paz.
Somos três.
Goren: jerosolimita nativo, um intelectual de cabelos revoltos e olhos azul-água de sonhador, judeu. Bassam Almohor: um amigo palestino, fotógrafo, incansável guia de caminhada vindo da Cisjordânia. Junto-me a eles depois de andar por 381 dias desde que saí da África, do berço biológico da humanidade no Grande Vale Rift, na Etiópia, e entrei na região do advento da agricultura, da invenção da linguagem escrita e da origem de deidades supremas, o Crescente Fértil. Minha lenta jornada é parte de um projeto intitulado Para Longe do Éden e tem por objetivo percorrer, passo a passo, os caminhos dos ancestrais da Idade da Pedra que descobriram nosso mundo. Pretendo andar por sete anos até o último canto do planeta aonde nossa espécie chegou: o extremo meridional da América do Sul. Quando descrevo minha trajetória para Goren, ele replica: “Sim. Você vem do sul, como Abraão”.
Nossa caminhada à margem do esgoto – grande ideia de Goren – é tão fascinante quanto excêntrica: ele quer limpar a sujeira (a Alemanha prometeu recursos para uma estação de tratamento) e criar quilômetros de trilhas “verdes” por um lendário vale onde 5 mil anos atrás Jerusalém foi fundada. Essas trilhas partiriam do cerne espiritual da Cidade Velha e passariam pelo deserto bíblico, onde a poluição flui densa sob o sol amarelo. Como o efluente atravessa a barreira que separa Israel da Cisjordânia, essa rota poria em contato as vidas de palestinos e israelenses. O rio purificado, coletando em sua árida bacia o sagrado e o profano, ajudaria a forjar a paz entre os dois arqui-inimigos do Oriente Médio. “Essa peregrinação será diferente em muitos níveis”, diz Goren. “Ela segue um importante corredor cultural e religioso, é verdade. Mas também liga palestinos e israelenses de um modo muito concreto. Estamos falando de água limpa.”
Começamos entre os santuários históricos das três fés abraâmicas: o Domo da Rocha, as torres da Igreja do Santo Sepulcro e os imponentes blocos do Muro das Lamentações, eriçado de orações em papel. Percorremos, suando em bicas, ruas sem sombras em bairros palestinos. Seguimos o esgoto através de morros estéreis, onde ele contorna um mosteiro do século 6 como um fosso sinistro. O efluente cruza um campo de tiro do Exército. Em desfiladeiros abafados, respiramos pela boca para suportar o fedor. Dois dias depois chegamos ao término: o mar salgado entre Israel e a Jordânia. Mar Morto.
“O monoteísmo nasceu aqui”, Goren me diz no alto de um penhasco defronte à faixa de água cor de ferro. “Assim que inventamos a agricultura, não precisamos mais de ninfas em cada fonte. Os antigos deuses da natureza selvagem tornaram-se desnecessários.”
Permaneceram apenas os mistérios supremos.
Parece tão impossível, tão inviável, tão ingênuo o sonho de Goren. (Semanas depois eclodirá outra rodada de lutas entre palestinos e israelenses. Foguetes arranharão o céu. Israel invadirá a vizinha Gaza. “Por causa disso vou regredir dois anos”, Goren lamentará. “Mas esperarei.”) Foi assim, afinal, que provavelmente avançamos no início, na aurora da humanidade. Contrariando probabilidades hilariantes. Por 2 500 gerações de reveses, desesperança, golpes, crises de fé. Mas, sem dúvida, essa é a busca que importa.
NG - Ternos escuros e barbas predominam em Mea Shearim, um enclave de judeus Haredi ultraortodoxos em Jerusalém
Ternos escuros e barbas predominam em Mea Shearim, um enclave de judeus Haredi ultraortodoxos em Jerusalém. Homens e mulheres ficam separados em muitas atividades públicas, em um bairro que mudou pouco desde seu surgimento, em 1874. - Foto: John Stanmeyer
ANDAMOS PARA O NORTE, Hamoudi Alweijah al Bedul e eu, desde a fronteira da Arábia Saudita. Subimos a Crista da Síria.
O que é a Crista da Síria?
Um baluarte de rocha: um colossal bloco de arenito que se ergue do Hisma, a pálida planície fronteiriça do sul da Jordânia. Os cartógrafos árabes da Idade Média desenharam essa barreira elevada como uma borda, um ponto fulcral, uma divisa. Ao sul, os vastos desertos geométricos de nômades árabes, um reduto de movimento feral, ventos volúveis, espaço aberto, couro de sela – terra das bravias tribos beduínas. Ao norte, os campos mais verdejantes e mais cobiçados de povos sedentários, de civilizações muradas, de camadas de fronteiras traçadas e apagadas – o coração de muitas câmaras do Levante. Adentramos o Crescente Fértil, a incubadora primordial da mudança humana. Uma central de impérios. Um palimpsesto de rotas de comércio. Um lugar de exílio e sacrifícios. De deuses ciumentos. A mais antiga das terras prometidas.
Hamoudi, meu guia, sobe a encosta cantando. Conduz uma mula de carga por uma corrente, curvado contra o vento gelado. Seu kaffiyeh desbotado adeja como uma bandeira. Vou na frente, puxando outra mula carregada. Hamoudi vai me guiando também, como a um animal tolo, com gritos em árabe. Em três dias, meu companheiro beduíno e eu passamos por touros neolíticos em tamanho natural entalhados em rocha no Wadi Rum, um fabuloso corredor de areia cor de tangerina – uma válvula primordial de migração humana que T.E. Lawrence chamou de “uma via processional maior do que a imaginação”. Passamos os dedos sobre inscrições de 2 000 anos gravadas por mercadores de incenso nabateus e pastores nômades. Transpusemos entulhos de fortes romanos. Acampamos ao lado de ruínas de igrejas em Bizâncio – o império cristão no Oriente – com naves desmoronadas que agora têm por teto o céu deserto marmoreado de cirros. Por toda parte vemos preces de peregrinos muçulmanos, mortos há muito tempo, entalhadas quando rumavam para o sul em direção a Meca.
A tempestade nos açoita na orla do Vale do Jordão. As mulas gemem. Desvairado por relâmpagos, um camelo manco passa a galope, berrando como um presságio zombeteiro, e desaparece na escuridão. Mulheres beduínas recusam-se a nos dar abrigo. No crepúsculo violeta, elas nos previnem de que devemos nos afastar, gritando objeções do interior de suas tendas abauladas e chacoalhantes. Cai a noite. Continuamos andando.
“Palestina”, diz Hamoudi a três pastores esquálidos, barbudos e imundos da tribo Sayadeen que finalmente nos acolhem. É um destino tão bom quanto qualquer outro.
Os pastores remexem as brasas cor de cereja de sua fogueira. Aceitam nosso café instantâneo adoçado com leite condensado, bebericando em copos de plástico com o mindinho espetado como lordes. Perguntam polidamente sobre nosso bem-estar. Louvam a Deus por estarmos satisfeitos. Tenho os pés congelados. Hamoudi pisca e escancara um sorriso. Dormirá com sua adaga sobre um tapete de areia. Amanhã é Natal.
A HUMANIDADE ESTACOU a meio caminho enquanto perambulava pelo Oriente Médio. Bandos de caçadores-coletores, cansados de 200 mil anos de andanças, fixaram-se nos vales áridos do Levante. Procuraram fontes permanentes de água potável. Aprenderam a semear ervas silvestres – cevada, trigo, linho. Domesticaram touros selvagens de chifres que atingiam 1,8 metro de envergadura. Caçar, o imperativo nômade, ficou ultrapassado para sempre. Os povos recémassentados começaram a empilhar pedra sobre pedra, erguendo as primeiras aldeias, vilas, cidades. Surgiu o metal fundido. Vieram o comércio e os exércitos. Todo um novo mundo, que ainda hoje habitamos. Essa “revolução neolítica” ocorreu entre 9 mil e 11 mil anos atrás. Irrompeu, independentemente, nas primeiras sociedades agrícolas da China, Mesoamérica e Melanésia. Mas floresceu, antes de tudo, nas amarrotadas colinas pardacentas e margens verdejantes de rios ao longo da nossa rota para fora da África.
Hamoudi e eu avançamos penosamente para o norte por 480 quilômetros, através das sombras cor de lavanda da Serra Transjordânica. Arrastamos nossas mulas teimosas pelas trilhas de Petra, a lendária capital nabateia esculpida em rochas vermelhas. Passamos por cemitérios da Idade do Bronze que continham mortos tão antigos e abandonados que quase já não pareciam humanos – Fayfa e Bad edh Dhra, as necrópoles que alguns estudiosos bíblicos associam às cidades destruídas no Gênesis, Sodoma e Gomorra.
02/12/2014 05h00 - Atualizado em 02/12/2014 05h00

Brasileiro enfrenta guerra e cobras venenosas para viajar por 192 países

'Zellfie', como é chamado, quer conhecer quase todos os países do mundo. Ele já nadou com tubarões, pilotou Ferrari e fez safári de helicóptero.

Flávia MantovaniDo G1, em São Paulo
José Hermínio Victorelli, o Zellfie, em tanque de guerra na Ucrânia (Foto: Zellfie/Divulgação)José Hermínio Victorelli, o Zellfie, em tanque de guerra na Ucrânia (Foto: Zellfie/Divulgação)
O paranaense José Hermínio Victorelli, de 32 anos, já conhecia 50 destinos fora do Brasil quando decidiu encher seu passaporte com ainda mais carimbos e lançou um objetivo ousado: visitar 192 países.
São quase todos os que existem no mundo –a ONU reconhece 193 países no planeta. Destes, o empresário e agropecuarista quer deixar de fora apenas a Somália. “Lá é perigoso demais. Não tem governo e acontecem muitos sequestros”, justifica.
Zellfie em Playa del Carmen, no México (Foto: Zellfie/Divulgação)Zellfie em Playa del Carmen, no México
(Foto: Zellfie/Divulgação)
A jornada começou em março deste ano, e ele não sabe quando deve acabar. Acredita que vai demorar cinco anos ou mais, porque costuma passar algum tempo do mês no Brasil entre uma viagem e outra. Em média, a cada duas ou três semanas José parte para um ou mais destinos. A cada país visitado, ele grava vídeos das experiências para seu site.
E são experiências intensas, que fogem dos programas turísticos tradicionais. Alguns exemplos: ele já andou em uma estrada cheia de cobras venenosas na Albânia, nadou com um tubarão-baleia sem a proteção de grades no México, pilotou uma Ferrari na Itália e uma McLaren na Croácia, treinou um gavião usando roupas típicas na Escócia e acompanhou o exército durante o conflito com rebeldes na Ucrânia.
“Minha ideia é juntar nos vídeos as três coisas que eu mais gosto: aventura extrema, curiosidades e máquinas”, diz ele, que banca as viagens do próprio bolso, mas atualmente busca patrocínio para profissionalizar os programas.
‘Zellfie’
Zellfie em algumas de suas aventuras pelo mundo (Foto: Zellfie/Divulgação)Zellfie em algumas de suas aventuras pelo mundo (Foto: Zellfie/Divulgação)
Natural de Londrina, José passou a ser conhecido nesse projeto como “Zellfie” – uma mistura de seu apelido, Zé, com a palavra “selfie”. “Eu estava na Namíbia, fiz uma ‘selfie’ e postei ‘#zellfie’. A galera rolou de rir e o apelido pegou”, conta. O “L” duplo ele diz que é uma homenagem a seu filho, que se chama Lorenzo, e a um irmão que morreu, Luiz.
Ele quer ir a lugares inóspitos. Pretende conhecer a cidade mais fria do planeta, na Sibéria, que registra temperaturas de até 60°C negativos, e uma das cidades mais quentes do mundo, no Irã, onde o termômetro passa dos 50°C
Foi na Namíbia que ele teve a ideia da viagem pelo mundo. Em uma semana que ficou lá, o paranaense percorreu 3 mil km de carro, fez safári de helicóptero, balonismo, paraquedismo e acompanhou a pesca de tubarões.
Depois, postou um vídeo de 36 segundos no Facebook sobre essas experiências, com seu forte sotaque. “Nunca tinha gravado nada. Filmei como se estivesse falando com um amigo meu, fazendo minhas piadinhas, usando os jargões do interior. Muita gente curtiu, e comecei a pensar em fazer mais vídeos de aventura para colocar na internet”, afirma.
O brasileiro na Groenlândia (Foto: Zellfie/Divulgação)O brasileiro em passagem pela Groenlândia
(Foto: Zellfie/Divulgação)
A ideia de Zellfie é conhecer alguns dos lugares mais inóspitos da Terra. Por exemplo, ele pretende ir durante o inverno para Yakutsk, na Sibéria, a cidade mais fria do planeta, que registra temperaturas de até 60°C negativos. Também quer visitar Ahvaz, no Irã, uma das cidades mais quentes do mundo, cuja temperatura no verão atinge ao menos 45°C e muitas vezes passa de 50°C.
O brasileiro já reservou um curso para aprender a dirigir tanques de guerra em Londres, quer conferir como funciona um trem-bala na China, pilotar um avião supersônico na Rússia e participar da caça a pítons gigantes por tribos africanas. “Os caras colocam a perna em um buraco, passam óleo e ficam lá por horas até que uma das cobras pegue a perna deles. Aí eles tiram a perna e vem a cobra junto. Eles comem, fazem isso por sobrevivência”, explica.
O país favorito
Zellfie carregando uma cabra e subindo em uma montanha no Afeganistão (Foto: Zellfie/Divulgação)Zellfie carregando uma cabra e subindo em uma montanha no Afeganistão (Foto: Zellfie/Divulgação)
Até hoje, Zellfie só teve problemas mais sérios duas vezes. Na Ucrânia, furtaram sua carteira, que estava no bolso de trás da calça. Já na fronteira do Afeganistão com o Tajiquistão, em um corredor de colinas que serve para escoar ópio para a fabricação de heroína, ele foi abordado pelo exército. “É um dos lugares mais tensos do mundo. Tomaram meu passaporte, queriam dinheiro, não queriam devolver”, conta. No fim, ele recuperou seu documento.
Seu país favorito até agora foi onde tudo começou: a Namíbia. “Em termos de visual e de atividades de aventura foi meu preferido. Fiquei chocado com as coisas que eu vi, as estradas onde andei, as pessoas que conheci”, diz.
Ele diz que vai voltar a todos os países que já conhecia antes de começar o projeto, para completar a lista de 192 "começando do zero". Afirma, ainda, que a viagem não tem uma ordem definida de destinos: "Pego o mapa-múndi na tela do computador e escolho: desta vez vamos para... E vou!”.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Água de lençol freático em edifícios de SP pode ser usado para limpeza

Folha de S.Paulo
MARCOS DÁVILA
DE SÃO PAULO 
23/11/2014 - 02h00

Faz dias que não chove. O sol castiga o asfalto no bairro da Liberdade e eis que surge um riacho veloz na sarjeta da rua Dr. Tomaz de Lima (região central). O nível do reservatório Cantareira registra apenas 10% de sua capacidade, contando o volume morto. Então, de onde vem tanta água em plena crise hídrica?

A corredeira chega a fazer barulho, arrastando as folhas secas e bitucas de cigarro à beira do meio-fio. Será algum desavisado limpando a calçada com o esguicho? Ninguém à vista naquele trecho da via.

O mistério é resolvido ao dobrar a esquina na rua Conde de Sarzeda, no alto da ladeira. O aguaçal vem de um cano na calçada em frente ao Tribunal de Justiça de São Paulo, no Edifício 9 de Julho, número 100.

"Com essa água dava para lavar a nossa frota de carros", diz um motorista que trabalha no tribunal. Segundo ele, a água jorra de meia em meia hora. Todos os dias são despejados milhares de litros na sarjeta, que já ganhou uma camada de limo.

Devido à profundidade da fundação do prédio, a água do lençol freático é desviada para um reservatório para não causar alagamento nas garagens dos subsolos. De quando em quando, a bomba é acionada, lançando o excesso de líquido para a rede pluvial na rua.

De acordo com o Tribunal de Justiça, "foram feitas diversas tentativas de reutilização da água, mas o forte cheiro de esgoto inviabiliza o uso".

Esse tipo de situação se repete em centenas de prédios na cidade, porém, não existe um levantamento oficial que contabilize todos os casos de edificações que fazem brotar água do lençol freático por conta da profundidade da fundação.

Dependendo da região da cidade, esses reservatórios superficiais subterrâneos, abastecidos pelas chuvas e vazamentos da rede pública, podem ser atingidos a menos de cinco metros de profundidade.

ARMAZENAMENTO

Na rua Estevão Barbosa, nos fundos do edifício residencial Spazio di Vivere, na Vila Anglo (região oeste), um cano lança água na rua. Segundo o zelador Miguel Ramos da Costa, 55, a construção atingiu o lençol freático e precisa bombear a água para não inundar o segundo subsolo.

Parte da água drenada é armazenada em um poço em um reservatório de 5.000 litros e é usada para lavar o pátio e regar as plantas.

"Não é água potável, mas fizemos uma análise no Instituto Adolfo Lutz e ela foi considerada satisfatória para esse uso", diz o zelador.

Logo em frente fica um depósito de material reciclável. Indignado com o desperdício, o proprietário Roberto Barriento, 46, criou um sistema de captação com um pedaço de cano e uma mangueira.

São necessários apenas três minutos para encher um tonel de 200 litros, tamanha a pressão. Ele trabalha há 28 anos no mesmo local e aproveita a água para lavar os carros e o pátio.

"Liguei para a Sabesp várias vezes, mandei e-mail, mas ninguém vem", diz Barriento. A empresa não é responsável pelos casos de rebaixamento do lençol freático -apenas se a água for direcionada para a rede de esgoto, cuidada pela estatal, é preciso pagar taxa mensal.

As águas subterrâneas são assunto do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica). Por meio de sua assessoria de comunicação, o Daee afirma que "o processo de lançamento dessa água [dos lençóis freáticos] na sarjeta é uma prática regular, pois, dessa maneira, ela cumpre o seu ciclo hídrico. O não descarte desse recurso pode ser prejudicial à estrutura do imóvel".

Segundo o Daee, para o descarte em via pública, não é necessária nenhuma formalização.

O pedido de outorga ou cadastramento só é necessário quando se faz a utilização da água. Em setembro, o órgão publicou uma portaria que permite o uso de recursos hídricos decorrentes de rebaixamento de lençol freático. Quando a captação atinge uma quantidade igual ou superior a 5.000 litros por dia, está sujeita ao cadastramento e à outorga. Se for inferior, é necessário apenas o cadastramento.

De acordo com a Cetesb (companhia ambiental de SP), a água proveniente do rebaixamento do lençol não pode ser ingerida e deve ser armazenada separadamente da água potável da rede pública.

"Estamos jogando fora uma coisa que agora tem valor, mas antes não se dava bola", afirma Reginaldo Bertolo, diretor do Cepas (Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas), da USP, sobre os recursos do lençol freático. Ele explica que essas águas tendem a ter uma qualidade ruim.

"Toda sorte de atividades que acontecem na superfície geram poluentes que migram solo adentro até alcançar o aquífero freático."

Os vazamentos da rede pública de esgoto, de postos de gasolina e de fossas são apontados como os principais causadores de contaminação. Os resíduos industriais podem gerar uma poluição ainda mais tóxica.

Mesmo sem potabilidade, esse recurso hídrico poderia ser utilizado para lavagem de calçadas, pátios e carros, rega de jardins e até como descarga sanitária. "Prédios que drenam continuamente a água do freático devem investir num reservatório para que a água seja usada para fins não nobres", diz Bertolo.

O professor de engenharia hídrica Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água, cita o exemplo do Sesc Pinheiros, na zona oeste.

Durante a construção, brotou água com alta concentração de ferro em dois pontos da garagem. Depois de tratada, a água pode ser usada nas bacias sanitárias e na limpeza do piso. Mensalmente, são captados e utilizados 600 mil litros.

ÁGUAS PROFUNDAS

Um estudo do Cepas mostra que há hoje uma oferta de 16 mil litros de água por segundo nos aquíferos da região metropolitana. É uma vazão compatível com uma Guarapiranga inteira, que abastece 4,9 milhões de pessoas. Dez mil litros de água por segundo já são utilizados por poços privados, inclusive os clandestinos.

De acordo com o diretor do Cepas, é preciso diferenciar a água encontrada no aquífero superficial —que pode aparecer nas garagens dos prédios— daquela dos poços profundos, chamados de artesianos.

Esses poços chegam a ter entre 150 e 200 metros de profundidade e captam uma água de boa qualidade. A vazão é alta e permite atender demandas de hospitais, creches, escolas, indústrias e condomínios.

A maior parte deles, no entanto, é ilegal. O mesmo estudo do Cepas mostra que, dos 12 mil poços 60% são clandestinos. Além disso, existem áreas superexploradas. "Algumas zonas estão secando", alerta.

O diretor do Cepas explica que a quantidade de poços profundos utilizada para o abastecimento público é irrisória. Esse recurso deveria ser considerado nas épocas de seca.

"É uma água privatizada. Talvez chegue o momento em que alguma autoridade pública decrete estado de calamidade ou emergência e esses poços particulares sejam requeridos. A água subterrânea pode desempenhar um papel muito importante para a segurança hídrica da população, principalmente em momentos de escassez".

terça-feira, 18 de novembro de 2014

INFORMAÇÕES PARA O NOVO SÉCULO

Pré-sal vs. mudança climática

31.10.2014

Para produzir a reportagem sobre política energéticaMão e contramão, publicada na edição 90, Página22 foi a campo pesquisar a relação de tempo existente entre o início da exploração do pré-sal brasileiro, que atingirá cinco milhões de barris ao dia em 2021, e a queda da demanda mundial por fontes de energia fóssil. Há um forte consenso de que por volta dos anos 2050 os países estarão em plena transição de suas matrizes energéticas para fontes renováveis. A proposta que orientou a reportagem foi: haverá tempo de o Brasil usufruir do potencial de riqueza do pré-sal? Ou, para tentar impedir o aumento além dos 2 graus na temperatura média da Terra, o mundo fará a transição para a energia renovável mais rápido do que se pensa?

Veja a integra das entrevistas com Roberto Schaeffer, Carlos Rittl e Maurício Tolmasquim

A seguir, entrevista com Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético da Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Se o Brasil exporta petróleo do pré-sal, que é um petróleo bom, você até poderia dizer sim que o País está ajudando a reduzir as emissões no mundo. Afinal, o mundo terá a opção de consumir um petróleo de melhor qualidade e não um ruim como o canadense ou o venezuelano”

Sob a perspectiva da mudança climática, existe um paradoxo no fato de o Brasil iniciar a exploração do pré-sal em um momento que deveria ser de restrição às energias fósseis?

No começo deste ano, eu e outros dois colegas da Coppe (Alexandre Szklo e Rodrigo Lucchesi), publicamos um artigo científico no Energy Policy justamente discutindo essa questão. (José) Goldemberg (professor da Universidade de São Paulo) nos convidou para escrevermos juntos o artigo “Oil and natural gas prospects in South America: Can the petroleum industry pave the way for renewables in Brazil?” sobre o pré-sal no Brasil para o (jornal) Energy Policy. O artigo mostra que quando se começa a produzir petróleo não obrigatoriamente cria-se demanda por esse petróleo. Os carros já estão na rua, as pessoas já estão consumindo. Não é porque o Brasil achou petróleo que irá consumir mais petróleo. O que vai ou não fazer isso são outras políticas associadas a questão do pré-sal. Por exemplo, neste momento (a entrevista foi realizada em 10 de outubro), para controlar a inflação, o governo está mantendo o preço da gasolina artificialmente baixo. Com isso, o Brasil está consumindo mais gasolina, está emitindo mais e não tem nada a ver com o pré-sal.
Ou seja, achar e produzir petróleo não tem relação direta com as emissões?

Exato. O Brasil não vai dirigir mais carro porque tem pré-sal. As emissões dependem de como esse petróleo será consumido e de que preço ele terá. Outro ponto é: o petróleo do pré-sal brasileiro é relativamente de boa qualidade. É leve, o que torna mais fácil produzir derivados de alto valor agregado como gasolina, diesel e querosene de aviação. Isso significa gastar muito menos energia, emitir muito menos do que se esse mesmo derivado fosse feito a partir de um petróleo pesado. Hoje o Canadá é o principal fornecedor dos EUA e seu petróleo é produzido a partir de areias betuminosas. É uma areia dura, sólida. O processo é complicadíssimo e emite muito para fazer gasolina e diesel. Dado que os melhores petróleos do mundo estão acabando, o mundo está indo para petróleos cada vez piores.

Quer dizer que o pré-sal pode até ajudar a diminuir as emissões? Parece bem contraditório.

Não se trata de uma defesa do petróleo, mas, nesse caso, partindo do pressuposto de que não se está criando demanda nova para o petróleo, se o Brasil exporta petróleo do pré-sal, que é um petróleo bom, você até poderia dizer sim que o País está ajudando a reduzir as emissões no mundo. Afinal, o mundo terá a opção de consumir um petróleo de melhor qualidade e não um ruim como o canadense ou o venezuelano.

Sem querer dar uma de advogado do diabo, a priori você não pode achar ruim um país que investe em petróleo. Queira ou não o mundo vai ficar dependente de petróleo pelos próximos 40 ou 50 anos. Os aviões vão continuar a voar com petróleo. Os carros comprados hoje vão ficar nas ruas pelo menos uns 20 anos. Não é de uma hora pra outro que o mundo vai ficar sem petróleo. Assim, é melhor que ele consuma um produto bom do que um produto ruim.

Há uma questão também que é a associação do petróleo, no caso do pré-sal, com gás natural. Em princípio não faz sentido econômico furar um poço para produzir gás natural. O normal é furar um poço para produzir petróleo e se tiver gás natural é um benefício adicional. O gás natural é visto um pouco como o combustível que vai permitir a transição de um mundo mais carbono intensivo para um mundo menos carbono intensivo, ou até um mundo quase sem carbono. O petróleo do pré-sal permitirá, por exemplo, que o Brasil possa expandir parte da sua geração elétrica mais para o gás natural e não tanto para o carvão.
Explique melhor essa participação do gás natural, por favor.

Para lidar com a intermitência das fontes renováveis eólica e solar é preciso ter outra fonte que tenha partida rápida e consiga fazer com que o sistema não caia. O gás natural é visto talvez como o melhor combustível para fazer esse papel. O carvão, a energia nuclear e a própria lenha ou bagaço de cana não se prestam a isso porque não têm essa velocidade de partida.

Melhor que o gás natural é a hidroeletricidade porque turbinas hidráulicas conseguem ligar muito rapidamente. Mas dado que o Brasil cada vez mais está indo para usinas a fio d’água, ou seja, sem reservatório, o Brasil ou as hidrelétricas brasileiras começam a perder essa capacidade de firmar essa intermitência dos renováveis.

Mas o mundo está caminhando para as renováveis, será que o Brasil está fazendo um bom negócio ao investir no pré-sal?

Nesse artigo (do Energy Policy) a gente mostra um pouco isso. Dado que o mundo durante algum tempo ainda vai depender do petróleo, como os royalties poderiam ser bem aplicados no Brasil? Justamente para lidar com educação e para preparar o sistema energético brasileiro para um futuro só dependente de renováveis. Mas esse futuro vai precisar de muito dinheiro para vir a acontecer e talvez o pré-sal venha a ser uma boa fonte de recurso para se viabilizar esse projeto. A linha do nosso artigo é não demonizar o petróleo, mas mostrar como usar o petróleo para se preparar para um mundo que não emita mais carbono.

Mas o Brasil vem reduzindo os investimentos em renováveis.

Dei uma aula  na PUC do Rio de Janeiro a convite do (jornalista e professor) André Trigueiro sobre mudança climática. Um aluno perguntou por que o País gastava  dinheiro com o pré-sal e não gastava com eólica e solar. Eu respondi que no fundo são dinheiros diferentes. Se você for a um banco hoje, em qualquer lugar do mundo e pedir emprestado US$ 200 milhões para investir em solar no Brasil não vai conseguir.  O motivo é que se o  negócio quebrar não haverá nenhuma garantia para dar em troca. Mas se você pedir US$ 200 milhões para financiar a produção de petróleo do pré-sal conseguirá. Se você quebrar o banco pega o seu petróleo. Não há risco nenhum. Então, quando falam que se gasta em petróleo  o que poderia ser gasto em renováveis, eu digo que são dinheiros diferentes. O dinheiro do petróleo se paga. O do solar e o do eólico não obrigatoriamente, ou todo mundo estaria investindo nisso. Mas todos os países que estão investindo muito em renováveis, investem na margem, na franja. Claro tem exceções como a Noruega, mas de maneira geral, a base de qualquer sistema energético hoje ainda é o combustível fóssil. O Brasil é também uma exceção.

E quanto aos prazos? Vamos ter tempo de consumir e exportar todo aquele petróleo?

Investimentos na área de energia são de longuíssimo prazo. A hora que o Brasil inaugurar (a usina nuclear) Angra 3, ela funcionará por 40, 50 ou 60 anos. Uma térmica a carvão também dura 50 anos. O carro dura 20 anos então essa transição não se completará de uma hora para outra. Depois, o petróleo será cada vez mais importante para seus usos não energéticos. Toda a indústria química tem o petróleo como base. O plástico é derivado do petróleo. O uso não energético é um uso nobre, que produz bens duráveis. Mesmo que não fosse para energia, o pré-sal faria sentido para esses outros usos.

Se a política econômica for popularesca como a da Arábia Saudita, a da Venezuela e a do México, que por terem muito petróleo vendem a gasolina quase de graça, aí sim a emissão pode aumentar muito. É uma grande bobagem jogar dinheiro fora para subsidiar a classe média para andar de carro. Mas estamos partindo do princípio de que não será assim. O mundo vai pagar US$ 100 a tonelada de petróleo, a Petrobras vai se encher de dinheiro e, como o governo é o maior acionista, vai investir em solar, em eólica e em educação.

Mas o petróleo do pré-sal nem é tão barato quando o da Arábia Saudita e o da Venezuela, certo?

O pré-sal é caro para ser produzido, mas como os volumes achados são tão absurdamente altos pode-se dizer que terá um custo médio. É segredo de Estado o custo de produção de petróleo. Desconfia-se que na América do Sul e no Oriente Médio chega-se a produzir petróleo a US$ 5 o barril. No Canadá talvez custe US$ 50. No pré-sal desconfia-se que custe entre US$ 30 e US$ 40. Se for  vendido a US$ 100  ainda será um bom negócio.

Até quando vai durar a exploração do pré-sal?

O ciclo de um campo de petróleo é de 25 a 30 anos. Então na hipótese de não se achar mais petróleo no pré-sal, e na hipótese de começarmos a produzir com toda a capacidade em 2020, haverá um pico de produção em 2035. E lá por 2045 acaba. Talvez coincida com o ciclo final do petróleo no mundo. Otiming não está ruim. Se o Brasil achasse o petróleo daqui a 20 anos talvez não valesse mais a pena explorar. Mas agora vale. As pessoas gostam de andar de avião, de ter coisas de plástico. O petróleo permite esse conforto.

Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

O petróleo no mundo continuará sendo usado apesar do aumento da participação das renováveis, principalmente na área de transporte e indústria. Então é um benefício importante que a sociedade tem. E não é antagônico à mitigação dos gases de efeito estufa”