segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Billings pode evitar o rodízio? Veja fatos e a opinião de especialistas
São Paulo planeja retirar mais água da Represa Billings, na Zona Sul de São Paulo, para reforçar os sistemas Guarapiranga e Alto Tietê. A medida integra um pacote de ações para amenizar a falta d’água no estado. Mas, quais os impactos e as possibilidades para o uso da represa? Ela pode salvar os clientes da Sabesp que dependem do Cantareira?
O G1 ouviu especialistas e o governo. Veja abaixo fatos e opiniões sobre o tema:
Atualmente o Cantareira abastece 6,2 milhões de pessoas. Antes da crise, eram 9 milhões. A diferença foi absorvida pelos outros sistemas e a Sabesp não divulgou novos planos para ampliar a interligação de toda rede e migrar todos os clientes do Cantareira para outros sistemas.
GERA ENERGIA E ABASTECIMENTO
O primeiro uso da Billings, na primeira metade do século 20, foi para armazenamento de água para geração de energia elétrica na Usina de Henry Borden, em Cubatão, na Baixada Santista. Mas, ao longo do tempo e com o crescimento de São Paulo, o uso prioritário passou a ser para o abastecimento da população nos moldes de hoje.
Ao todo, a Billings colabora com 7,7 metros cúbicos por segundo de água para atender 2,3 milhões de pessoas pelos sistemas Rio Grande e Guarapiranga. Isso corresponde a um terço do Cantareira ou metade do Alto Tietê. Na Baixada Santista, o Rio Cubatão também usa água da represa para abastecer 250 mil pessoas, segundo a Sabesp.
VOLUME É DE 500 BILHÕES DE LITROS
A Represa Billings tem capacidade para armazenar 1,2 trilhão de litros e é considerada o maior reservatório da região metropolitana de São Paulo, segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente.
Em janeiro, o volume armazenado era cerca de 500 bilhões de litros. Para efeito de comparação, o terceiro volume morto do Cantareira tem 41 bilhões de litros. Apesar disso, ela não é considerada como um dos sistemas de abastecimento da Grande São Paulo e fornece água para complementar sistemas.
ESTIMATIVA É DE 4,5 MILHÕES
Estima-se que a Billings teria capacidade para fornecer água a cerca de 4,5 milhões de pessoas, o que não ocorre devido à poluição e intensa ocupação irregular nas margens, segundo especialistas.
A presença de contaminantes industriais é outra preocupação. “A Billings foi um reservatório que por muito tempo foi usado para receber afluente industrial, e o lodo no fundo da represa ainda tem uma concentração grande desses resíduos”, explicou o professor associado do departamento de engenharia hidráulica e ambiental da Escola Politécnica da USP, José Carlos Mierzwa.
REPRESA TEM NÍVEIS DIFERENTES DE ESGOTO EM CADA TRECHO
A água da represa tem níveis diferentes de poluição. Desde 1958, a Sabesp usa água de dois braços da represa: do Rio Grande retira 5,5 m³/segundo para atender Diadema, São Bernardo e parte de Santo André. Essa parte do manancial é considerada mais limpa e é isolada da parte mais poluída da Billings.
Do Rio Taquacetuba retira 2,19 m³/segundo. Esse trecho é mais contaminado porque está próximo à área de descarga da água dos rios Tietê e Pinheiros sem tratamento, e enviados para o Guarapiranga. Entretanto, nem toda a represa tem a mesma qualidade. Teste feito a pedido do Bom Dia Brasil com uma amostra da Billings mostrou que a água está contaminada por bactérias, como escherichia coli, salmonella e shigella, provenientes da contaminação por esgoto não tratado.
HÁ TECNOLOGIA DISPONÍVEL PARA TRATAR A ÁGUA A REPRESA
As técnicas convencionais de limpeza da água usadas hoje em São Paulo não são suficientes, segundo o professor da USP José Carlos Mierzwa. Ele indica sistemas mais sofisticados, como o de membranas ultrafiltrantes, meio com mais capacidade para reter impurezas, como alternativa.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
5 fatos interessantes sobre a Terra
Terremotos não são raros
Se tomarmos o mundo inteiro em conta, os terremotos ocorrem cerca de 500.000 vezes por ano. Cerca de um quinto destes terremotos pode ser sentida pelos seres humanos. Estes sismos menores, que não podem ser detectados por nós, ocorrem a uma velocidade de cerca de 8.000 por dia. Os tremores que podem ser sentidos, mas causam pouco ou nenhum dano a ocorrer cerca de 55.000 vezes por ano.
O núcleo da Terra é mais quente que o Sol
Núcleo interno da Terra é uma bola imensa constituída de uma liga de ferro, com uma espessura de 1,207 km. Esta esfera de metal proporciona um campo magnético protetor contra os raios vindo do espaço. E sua temperatura é 6.100 graus Celsius, tornando-se tão quente como o Sol.
Cerca de 95% do mar ainda é um mistério
Mesmo que a água cubra 71 por cento da superfície da Terra, só exploramos apenas 5 por cento do mesmo. A luz solar penetra até aproximadamente 275 metros. A maior parte da água do oceano escurece a uma profundidade de 30 metros. Há tantos abismos escuros que ainda temos de descobrir.
A gravidade não é uniforme
Você acha que a gravidade teria um efeito igual em todos os lugares do mundo, mas isso não acontece. Por exemplo, a área da Baía de Hudson, Canadá tem uma força gravitacional mais fraca do que a maioria dos lugares na Terra. A mudança é tão minúscula, que você nunca irá senti-lá, mas a tecnologia moderna pode detectá-lá. Até hoje não se tem uma explicação concreta sobre isso.
A Terra é muito pequena
Não é nenhum segredo que a Terra é menor do que o Sol. Impressionantes 109 Terras caberiam ao longo da face do Sol. No entanto, ao mesmo tempo que pode ser um número grande, não é nada em comparação com os cerca de 1,3 milhões de Terras que poderiam caber dentro do nosso Sol como um todo.
Fonte: ListVerse
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Pedreiro faz casa 'ecologicamente correta' com garrafas pet em MG
Mais de 10 mil garrafas foram usadas na estrutura do imóvel em Extrema.
Usando materiais doados, custo da construção ficou menos de R$ 15 mil.
Um pedreiro de Extrema (MG) resolveu unir criatividade, economia e preservação ambiental na construção da casa própria e usou mais de 10 mil garrafas pet na estrutura do imóvel. O resultado é uma casa arejada, resistente e ecologicamente correta. Usando materiais doados e reutilizando outros, o custo do imóvel ficou em menos de R$ 15 mil. Especialistas acreditam que o projeto, seguro e sustentável, é uma boa solução para a preservação do meio ambiente.
Ao olharmos o imóvel de longe, a estrutura aparenta ser uma casa convencional, mas ao nos aproximarmos, no lugar de tijolos o que se vê são círculos coloridos das garrafas que geralmente usamos para armazenar refrigerantes. O pedreiro Ed Mauro Aparecido Morbidelli conta que teve a ajuda do pai para investir no projeto. "Noventa por cento das garrafas foi meu pai que pegou nas coletas seletivas, passava antes do caminhão e pegava as garrafas, e amigos que iam guardando nas casas.”
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O pedreiro garante que as paredes são tão firmes quanto as feitas com tijolos e que a casa resiste às ações do tempo. "Isso aqui é um tijolo, quase 8 kg cada garrafa cheia", explica.
Dentro da casa a temperatura é agradável. Os cômodos recebem claridade pelas garrafas plásticas colocadas no telhado. A decoração revela outro talento do pedreiro, de reaproveitar peças que seriam descartadas. Com cacos de azulejo, ele montou mosaicos no banheiro, e com madeiras que iriam para o lixo, fez uma cadeira. A pia da cozinha tem adornos com fundos de garrafa de vidro e até batentes e janelas foram reformados, o que deixou a construção da casa ainda mais barata. "Ficou cerca de uns R$ 12 mil a casa, mas reaproveitando janela, porta, tudo de demolição que foi doado", calcula.
da casa (Foto: Edson de Oliveira / EPTV)
Agora, Morbidelli espera que o projeto dele possa ajudar outras pessoas. "Tem tanta gente que às vezes tem um pedaço de terreno, mas não tem dinheiro pra construir e está pagando aluguel, então você pode fazer algo com baixo custo e que fica bom, que dá pra você morar e tem a preservação [do meio ambiente]. Então [é juntar] o útil ao agradável."
Viável e sustentável
Segundo a arquiteta Ângela Marques, especialista em utilização de materiais alternativos em construções, o uso de garrafas pet em construção se iniciou na Índia e na América Latina, em 2000, e em 2011 ela foi utilizada na Nigéria pra resolver duas questões: o déficit de moradias e o descarte de garrafas pet nas ruas sem um uso adequado.
"A resistência deste material é muito maior do que a do tijolo convencional, isso foi comprovado em pesquisas, e também um ponto importante é a característica termoacústica que a parede de garrafa-tijolo tem. A condutibilidade do calor é inferior ao do tijolo convencional, isso garante que dentro de uma casa de garrafa pet você tem uma temperatura que chega a 18º num país tropical. Isso é super confortável", afirma.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Para Longe do Éden: Bênção. Maldição. Cobiça
A travessia da Terra Santa
Brasileiro enfrenta guerra e cobras venenosas para viajar por 192 países
'Zellfie', como é chamado, quer conhecer quase todos os países do mundo. Ele já nadou com tubarões, pilotou Ferrari e fez safári de helicóptero.
(Foto: Zellfie/Divulgação)
(Foto: Zellfie/Divulgação)
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Água de lençol freático em edifícios de SP pode ser usado para limpeza
Folha de S.Paulo
MARCOS DÁVILA
DE SÃO PAULO
23/11/2014 - 02h00
Faz dias que não chove. O sol castiga o asfalto no bairro da Liberdade e eis que surge um riacho veloz na sarjeta da rua Dr. Tomaz de Lima (região central). O nível do reservatório Cantareira registra apenas 10% de sua capacidade, contando o volume morto. Então, de onde vem tanta água em plena crise hídrica?
A corredeira chega a fazer barulho, arrastando as folhas secas e bitucas de cigarro à beira do meio-fio. Será algum desavisado limpando a calçada com o esguicho? Ninguém à vista naquele trecho da via.
O mistério é resolvido ao dobrar a esquina na rua Conde de Sarzeda, no alto da ladeira. O aguaçal vem de um cano na calçada em frente ao Tribunal de Justiça de São Paulo, no Edifício 9 de Julho, número 100.
"Com essa água dava para lavar a nossa frota de carros", diz um motorista que trabalha no tribunal. Segundo ele, a água jorra de meia em meia hora. Todos os dias são despejados milhares de litros na sarjeta, que já ganhou uma camada de limo.
Devido à profundidade da fundação do prédio, a água do lençol freático é desviada para um reservatório para não causar alagamento nas garagens dos subsolos. De quando em quando, a bomba é acionada, lançando o excesso de líquido para a rede pluvial na rua.
De acordo com o Tribunal de Justiça, "foram feitas diversas tentativas de reutilização da água, mas o forte cheiro de esgoto inviabiliza o uso".
Esse tipo de situação se repete em centenas de prédios na cidade, porém, não existe um levantamento oficial que contabilize todos os casos de edificações que fazem brotar água do lençol freático por conta da profundidade da fundação.
Dependendo da região da cidade, esses reservatórios superficiais subterrâneos, abastecidos pelas chuvas e vazamentos da rede pública, podem ser atingidos a menos de cinco metros de profundidade.
ARMAZENAMENTO
Na rua Estevão Barbosa, nos fundos do edifício residencial Spazio di Vivere, na Vila Anglo (região oeste), um cano lança água na rua. Segundo o zelador Miguel Ramos da Costa, 55, a construção atingiu o lençol freático e precisa bombear a água para não inundar o segundo subsolo.
Parte da água drenada é armazenada em um poço em um reservatório de 5.000 litros e é usada para lavar o pátio e regar as plantas.
"Não é água potável, mas fizemos uma análise no Instituto Adolfo Lutz e ela foi considerada satisfatória para esse uso", diz o zelador.
Logo em frente fica um depósito de material reciclável. Indignado com o desperdício, o proprietário Roberto Barriento, 46, criou um sistema de captação com um pedaço de cano e uma mangueira.
São necessários apenas três minutos para encher um tonel de 200 litros, tamanha a pressão. Ele trabalha há 28 anos no mesmo local e aproveita a água para lavar os carros e o pátio.
"Liguei para a Sabesp várias vezes, mandei e-mail, mas ninguém vem", diz Barriento. A empresa não é responsável pelos casos de rebaixamento do lençol freático -apenas se a água for direcionada para a rede de esgoto, cuidada pela estatal, é preciso pagar taxa mensal.
As águas subterrâneas são assunto do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica). Por meio de sua assessoria de comunicação, o Daee afirma que "o processo de lançamento dessa água [dos lençóis freáticos] na sarjeta é uma prática regular, pois, dessa maneira, ela cumpre o seu ciclo hídrico. O não descarte desse recurso pode ser prejudicial à estrutura do imóvel".
Segundo o Daee, para o descarte em via pública, não é necessária nenhuma formalização.
O pedido de outorga ou cadastramento só é necessário quando se faz a utilização da água. Em setembro, o órgão publicou uma portaria que permite o uso de recursos hídricos decorrentes de rebaixamento de lençol freático. Quando a captação atinge uma quantidade igual ou superior a 5.000 litros por dia, está sujeita ao cadastramento e à outorga. Se for inferior, é necessário apenas o cadastramento.
De acordo com a Cetesb (companhia ambiental de SP), a água proveniente do rebaixamento do lençol não pode ser ingerida e deve ser armazenada separadamente da água potável da rede pública.
"Estamos jogando fora uma coisa que agora tem valor, mas antes não se dava bola", afirma Reginaldo Bertolo, diretor do Cepas (Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas), da USP, sobre os recursos do lençol freático. Ele explica que essas águas tendem a ter uma qualidade ruim.
"Toda sorte de atividades que acontecem na superfície geram poluentes que migram solo adentro até alcançar o aquífero freático."
Os vazamentos da rede pública de esgoto, de postos de gasolina e de fossas são apontados como os principais causadores de contaminação. Os resíduos industriais podem gerar uma poluição ainda mais tóxica.
Mesmo sem potabilidade, esse recurso hídrico poderia ser utilizado para lavagem de calçadas, pátios e carros, rega de jardins e até como descarga sanitária. "Prédios que drenam continuamente a água do freático devem investir num reservatório para que a água seja usada para fins não nobres", diz Bertolo.
O professor de engenharia hídrica Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água, cita o exemplo do Sesc Pinheiros, na zona oeste.
Durante a construção, brotou água com alta concentração de ferro em dois pontos da garagem. Depois de tratada, a água pode ser usada nas bacias sanitárias e na limpeza do piso. Mensalmente, são captados e utilizados 600 mil litros.
ÁGUAS PROFUNDAS
Um estudo do Cepas mostra que há hoje uma oferta de 16 mil litros de água por segundo nos aquíferos da região metropolitana. É uma vazão compatível com uma Guarapiranga inteira, que abastece 4,9 milhões de pessoas. Dez mil litros de água por segundo já são utilizados por poços privados, inclusive os clandestinos.
De acordo com o diretor do Cepas, é preciso diferenciar a água encontrada no aquífero superficial —que pode aparecer nas garagens dos prédios— daquela dos poços profundos, chamados de artesianos.
Esses poços chegam a ter entre 150 e 200 metros de profundidade e captam uma água de boa qualidade. A vazão é alta e permite atender demandas de hospitais, creches, escolas, indústrias e condomínios.
A maior parte deles, no entanto, é ilegal. O mesmo estudo do Cepas mostra que, dos 12 mil poços 60% são clandestinos. Além disso, existem áreas superexploradas. "Algumas zonas estão secando", alerta.
O diretor do Cepas explica que a quantidade de poços profundos utilizada para o abastecimento público é irrisória. Esse recurso deveria ser considerado nas épocas de seca.
"É uma água privatizada. Talvez chegue o momento em que alguma autoridade pública decrete estado de calamidade ou emergência e esses poços particulares sejam requeridos. A água subterrânea pode desempenhar um papel muito importante para a segurança hídrica da população, principalmente em momentos de escassez".
terça-feira, 18 de novembro de 2014
INFORMAÇÕES PARA O NOVO SÉCULO
31.10.2014
Para produzir a reportagem sobre política energéticaMão e contramão, publicada na edição 90, Página22 foi a campo pesquisar a relação de tempo existente entre o início da exploração do pré-sal brasileiro, que atingirá cinco milhões de barris ao dia em 2021, e a queda da demanda mundial por fontes de energia fóssil. Há um forte consenso de que por volta dos anos 2050 os países estarão em plena transição de suas matrizes energéticas para fontes renováveis. A proposta que orientou a reportagem foi: haverá tempo de o Brasil usufruir do potencial de riqueza do pré-sal? Ou, para tentar impedir o aumento além dos 2 graus na temperatura média da Terra, o mundo fará a transição para a energia renovável mais rápido do que se pensa?
Veja a integra das entrevistas com Roberto Schaeffer, Carlos Rittl e Maurício Tolmasquim
A seguir, entrevista com Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético da Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Se o Brasil exporta petróleo do pré-sal, que é um petróleo bom, você até poderia dizer sim que o País está ajudando a reduzir as emissões no mundo. Afinal, o mundo terá a opção de consumir um petróleo de melhor qualidade e não um ruim como o canadense ou o venezuelano”
Sob a perspectiva da mudança climática, existe um paradoxo no fato de o Brasil iniciar a exploração do pré-sal em um momento que deveria ser de restrição às energias fósseis?
No começo deste ano, eu e outros dois colegas da Coppe (Alexandre Szklo e Rodrigo Lucchesi), publicamos um artigo científico no Energy Policy justamente discutindo essa questão. (José) Goldemberg (professor da Universidade de São Paulo) nos convidou para escrevermos juntos o artigo “Oil and natural gas prospects in South America: Can the petroleum industry pave the way for renewables in Brazil?” sobre o pré-sal no Brasil para o (jornal) Energy Policy. O artigo mostra que quando se começa a produzir petróleo não obrigatoriamente cria-se demanda por esse petróleo. Os carros já estão na rua, as pessoas já estão consumindo. Não é porque o Brasil achou petróleo que irá consumir mais petróleo. O que vai ou não fazer isso são outras políticas associadas a questão do pré-sal. Por exemplo, neste momento (a entrevista foi realizada em 10 de outubro), para controlar a inflação, o governo está mantendo o preço da gasolina artificialmente baixo. Com isso, o Brasil está consumindo mais gasolina, está emitindo mais e não tem nada a ver com o pré-sal.
Ou seja, achar e produzir petróleo não tem relação direta com as emissões?
Exato. O Brasil não vai dirigir mais carro porque tem pré-sal. As emissões dependem de como esse petróleo será consumido e de que preço ele terá. Outro ponto é: o petróleo do pré-sal brasileiro é relativamente de boa qualidade. É leve, o que torna mais fácil produzir derivados de alto valor agregado como gasolina, diesel e querosene de aviação. Isso significa gastar muito menos energia, emitir muito menos do que se esse mesmo derivado fosse feito a partir de um petróleo pesado. Hoje o Canadá é o principal fornecedor dos EUA e seu petróleo é produzido a partir de areias betuminosas. É uma areia dura, sólida. O processo é complicadíssimo e emite muito para fazer gasolina e diesel. Dado que os melhores petróleos do mundo estão acabando, o mundo está indo para petróleos cada vez piores.
Quer dizer que o pré-sal pode até ajudar a diminuir as emissões? Parece bem contraditório.
Não se trata de uma defesa do petróleo, mas, nesse caso, partindo do pressuposto de que não se está criando demanda nova para o petróleo, se o Brasil exporta petróleo do pré-sal, que é um petróleo bom, você até poderia dizer sim que o País está ajudando a reduzir as emissões no mundo. Afinal, o mundo terá a opção de consumir um petróleo de melhor qualidade e não um ruim como o canadense ou o venezuelano.
Sem querer dar uma de advogado do diabo, a priori você não pode achar ruim um país que investe em petróleo. Queira ou não o mundo vai ficar dependente de petróleo pelos próximos 40 ou 50 anos. Os aviões vão continuar a voar com petróleo. Os carros comprados hoje vão ficar nas ruas pelo menos uns 20 anos. Não é de uma hora pra outro que o mundo vai ficar sem petróleo. Assim, é melhor que ele consuma um produto bom do que um produto ruim.
Há uma questão também que é a associação do petróleo, no caso do pré-sal, com gás natural. Em princípio não faz sentido econômico furar um poço para produzir gás natural. O normal é furar um poço para produzir petróleo e se tiver gás natural é um benefício adicional. O gás natural é visto um pouco como o combustível que vai permitir a transição de um mundo mais carbono intensivo para um mundo menos carbono intensivo, ou até um mundo quase sem carbono. O petróleo do pré-sal permitirá, por exemplo, que o Brasil possa expandir parte da sua geração elétrica mais para o gás natural e não tanto para o carvão.
Explique melhor essa participação do gás natural, por favor.
Para lidar com a intermitência das fontes renováveis eólica e solar é preciso ter outra fonte que tenha partida rápida e consiga fazer com que o sistema não caia. O gás natural é visto talvez como o melhor combustível para fazer esse papel. O carvão, a energia nuclear e a própria lenha ou bagaço de cana não se prestam a isso porque não têm essa velocidade de partida.
Melhor que o gás natural é a hidroeletricidade porque turbinas hidráulicas conseguem ligar muito rapidamente. Mas dado que o Brasil cada vez mais está indo para usinas a fio d’água, ou seja, sem reservatório, o Brasil ou as hidrelétricas brasileiras começam a perder essa capacidade de firmar essa intermitência dos renováveis.
Mas o mundo está caminhando para as renováveis, será que o Brasil está fazendo um bom negócio ao investir no pré-sal?
Nesse artigo (do Energy Policy) a gente mostra um pouco isso. Dado que o mundo durante algum tempo ainda vai depender do petróleo, como os royalties poderiam ser bem aplicados no Brasil? Justamente para lidar com educação e para preparar o sistema energético brasileiro para um futuro só dependente de renováveis. Mas esse futuro vai precisar de muito dinheiro para vir a acontecer e talvez o pré-sal venha a ser uma boa fonte de recurso para se viabilizar esse projeto. A linha do nosso artigo é não demonizar o petróleo, mas mostrar como usar o petróleo para se preparar para um mundo que não emita mais carbono.
Mas o Brasil vem reduzindo os investimentos em renováveis.
Dei uma aula na PUC do Rio de Janeiro a convite do (jornalista e professor) André Trigueiro sobre mudança climática. Um aluno perguntou por que o País gastava dinheiro com o pré-sal e não gastava com eólica e solar. Eu respondi que no fundo são dinheiros diferentes. Se você for a um banco hoje, em qualquer lugar do mundo e pedir emprestado US$ 200 milhões para investir em solar no Brasil não vai conseguir. O motivo é que se o negócio quebrar não haverá nenhuma garantia para dar em troca. Mas se você pedir US$ 200 milhões para financiar a produção de petróleo do pré-sal conseguirá. Se você quebrar o banco pega o seu petróleo. Não há risco nenhum. Então, quando falam que se gasta em petróleo o que poderia ser gasto em renováveis, eu digo que são dinheiros diferentes. O dinheiro do petróleo se paga. O do solar e o do eólico não obrigatoriamente, ou todo mundo estaria investindo nisso. Mas todos os países que estão investindo muito em renováveis, investem na margem, na franja. Claro tem exceções como a Noruega, mas de maneira geral, a base de qualquer sistema energético hoje ainda é o combustível fóssil. O Brasil é também uma exceção.
E quanto aos prazos? Vamos ter tempo de consumir e exportar todo aquele petróleo?
Investimentos na área de energia são de longuíssimo prazo. A hora que o Brasil inaugurar (a usina nuclear) Angra 3, ela funcionará por 40, 50 ou 60 anos. Uma térmica a carvão também dura 50 anos. O carro dura 20 anos então essa transição não se completará de uma hora para outra. Depois, o petróleo será cada vez mais importante para seus usos não energéticos. Toda a indústria química tem o petróleo como base. O plástico é derivado do petróleo. O uso não energético é um uso nobre, que produz bens duráveis. Mesmo que não fosse para energia, o pré-sal faria sentido para esses outros usos.
Se a política econômica for popularesca como a da Arábia Saudita, a da Venezuela e a do México, que por terem muito petróleo vendem a gasolina quase de graça, aí sim a emissão pode aumentar muito. É uma grande bobagem jogar dinheiro fora para subsidiar a classe média para andar de carro. Mas estamos partindo do princípio de que não será assim. O mundo vai pagar US$ 100 a tonelada de petróleo, a Petrobras vai se encher de dinheiro e, como o governo é o maior acionista, vai investir em solar, em eólica e em educação.
Mas o petróleo do pré-sal nem é tão barato quando o da Arábia Saudita e o da Venezuela, certo?
O pré-sal é caro para ser produzido, mas como os volumes achados são tão absurdamente altos pode-se dizer que terá um custo médio. É segredo de Estado o custo de produção de petróleo. Desconfia-se que na América do Sul e no Oriente Médio chega-se a produzir petróleo a US$ 5 o barril. No Canadá talvez custe US$ 50. No pré-sal desconfia-se que custe entre US$ 30 e US$ 40. Se for vendido a US$ 100 ainda será um bom negócio.
Até quando vai durar a exploração do pré-sal?
O ciclo de um campo de petróleo é de 25 a 30 anos. Então na hipótese de não se achar mais petróleo no pré-sal, e na hipótese de começarmos a produzir com toda a capacidade em 2020, haverá um pico de produção em 2035. E lá por 2045 acaba. Talvez coincida com o ciclo final do petróleo no mundo. Otiming não está ruim. Se o Brasil achasse o petróleo daqui a 20 anos talvez não valesse mais a pena explorar. Mas agora vale. As pessoas gostam de andar de avião, de ter coisas de plástico. O petróleo permite esse conforto.
Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE)
“O petróleo no mundo continuará sendo usado apesar do aumento da participação das renováveis, principalmente na área de transporte e indústria. Então é um benefício importante que a sociedade tem. E não é antagônico à mitigação dos gases de efeito estufa”